sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Artista ou um bom músico?


O talento é uma vocação ou dom que uma pessoa tenha para música ou outra atividade.
Porém, basta a presença desse talento no indivíduo para que possa ser considerado um artista?
Na minha opinião não. O artista é formado por vários elementos como talento, criatividade, carisma, sensibilidade, ética, postura, imagem e sua responsabilidade social/cultural.
O talento nato é um elemento que pode ser substituído muitas vezes pela dedicação, trabalho e aprendizado através de sistemas mecânicos de ensino.
Um sujeito que mal sabia tocar um instrumento pode aprender e se tornar um grande músico. Uns nascem com o talento e outros podem desenvolvê-lo com o tempo.
Já o lado artístico é muito íntimo. São todos os elementos que formam o caráter do ser humano alinhados a exposição do seu talento.
Todo ser talentoso pode ser um grande músico, mas nem todos são artistas.
Ao demonstrar seu talento, coloca-se numa vitrine onde estará totalmente exposto. Esta exposição gera olhares, análises e críticas, sejam boas ou ruins.
O artista sente o mundo que vive e o interpreta, mexendo com os sentimentos de quem o assiste. A arte é um jogo de emoções e é preciso mais que talento para trabalhar isso. É preciso saber passar sua mensagem de forma responsável e ética. Afinal, o artista muitas vezes se torna um exemplo, um ídolo. Este, atua como estímulo de qualquer tarefa ou simples ato na vida da pessoa.
As pessoas imitam seus ídolos, procuram agir como eles. Pode ser crítico, rebelde, mas sempre de forma responsável.
O artista não pode esquecer que é um produto da sociedade e por isso deve a mesma uma responsabilidade em suas ações.É a sociedade que proporciona a ele todos os mecanismos que formam seu caráter, sua intimidade e que lhe permite expressar seus sentimentos. Há uma relação contínua entre os dois, onde uma fornece os elementos e o outro os expõe do seu ponto vista, criando uma reação ao seu trabalho, seja positiva ou negativa.
Talento demonstrado sozinho é apático. E a apatia é a inimiga número 1 da arte.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A QUAL PLANETA VOCÊ PERTENCE?


Vou inaugurar meu blog falando de um tema bastante polêmico e que gera muita discussão: sistema de venda obrigatória de uma cota de ingressos.
Lembrando que não estou aqui pra julgar o trabalho de ninguém, nem mesmo o caráter. Apenas pretendo com esse artigo dar a minha opinião como um produtor que atua há 07 anos na cena independente carioca, tendo trabalhado diretamente com diversos tipos de produtores e seus esquemas, assim formando minha opinião. 

Todos que trabalham na cena independente sabem das dificuldades desse mercado de trabalho. Podemos citar a falta de apoio das empresas, das casas, da falta de interesse do público e muitos outros motivos que levam a essa dificuldade (tentarei expor alguns assuntos desses em outros post). Porém, apesar dessa dificuldade de produzir um evento nesse meio, considero errado e totalmente prejudicial o sistema de ingressos para o futuro do cenário independente carioca e até mesmo nacional. 
Parto do principio que todo negócio possui um risco, o ônus comercial. Em todo tipo de negócio, empresa ou ramo de atividade, há um risco para aquele que constrói ali o seu "ganha pão". Sendo assim, todo aquele que se propõe a explorar certa atividade(entenda aqui, ainda, a palavra de forma literal, no sentido de desenvolver atividade) deverá arcar com o risco e prejuízo do seu negócio.
Neste sentido, considero que aquele que inicia sua atividade no ramo de produção deverá arcar com os prejuízos que seu evento possa vir a causar e, em hipótese alguma, poderá considerar que os músicos são também responsáveis por isso. O músico é responsável por executar suas músicas no palco conforme combinado em contrato. Deve ter uma postura adequada com a casa, com a produção e com o público presente. Esse é o dever do músico nessa relação e por isso deve ser cobrado.
Todavia, de uns anos pra cá, tornou-se comum em nossa cidade essa "forma de produção". O "produtor", exige dos músicos ou bandas uma venda obrigatória de determinada cota de ingressos, que pode variar de 10 a 100 ingressos como já vi por ai, ou pagamento de uma taxa que vai de R$200,00 em diante dependendo do evento.
E esse "esquema parceiro", de divisão de custos do evento, criado por aquele produtor "inovador", "amigo", teoricamente, nas palavras deles, torna possível o sonho de muitas bandas em tocarem e mostrarem seu trabalho. E estas, deveriam agradecer e não reclamar. Afinal, eles são responsáveis por manter a cena viva, rodando, ativa e dando oportunidades de trabalho. Será? Vamos aos fatos.
De acordo com a Wikipedia, o conceito de epidemia é:

"Uma epidemia se caracteriza pela incidência, em curto período de tempo, de grande número de casos de uma doença. ... Um surto epidêmico ocorre quando há um grande desiquilibro com o agente, sendo posto em vantagem. ... Ao longo do tempo a relação entre agente e hospedeiro tende a mudar de depredatória (favorecendo o agente) para comensal (que não favorece nem um nem outro)."

É exatamente assim que vejo a relação produtor x músico nesse caso. E justamente com um "X" entre os dois. Porque não se trata de uma parceria e sim de uma disputa, onde o produtor, por ser o criador das oportunidades vence sempre e tem o direito de agir e exigir os esquemas que bem entender. A banda esbarra nas dificuldades diárias de venda dos ingressos. Tendo que se preocupar com o prejuízo que pode ter se não vender,  somando a isso preocupações cotidianas como ensaios, gravações, composições etc.
A relação ideal seria produtor + banda. Uma parceria realmente. Onde as bandas tivessem a preocupação em mostrar seu trabalho com qualidade, gastando sua preocupação em trabalhar isso.
Vale ressaltar, que não considero isenta a banda de divulgação. São coisas distintas. Se eu chamo uma banda pra um evento, monto uma parceria, eu espero que a mesma divulgue o evento. Crio a expectativa que a mesma vá avisar aos amigos, fãs, parentes sobre aquele show e vai tentar ajudar o evento, a casa e a produção da mesma forma que ajudamos. Não concordo com banda que diz que não quer levar amigos e nem divulga porque não quer tocar mais pra eles. Tem que ser pensado no outro lado: casa, produção e evento. Porém, exigir da mesma um mínimo é algo ultrapassado e totalmente sem sentido. Eu assumo o risco de selecionar e colocar determinada banda. Cabe a mim assumir o risco disso. Cabe a banda provar que é digna de minha confiança e apresentar um belo trabalho, uma grande postura e ainda que não leve ninguém diretamente, ao menos se mostre empenhada em ajudar também. É esse o espírito a seguir. A união. Onde todos vão ganhar e não há uma relação de superioridade entre as partes.
A venda de ingressos coloca qualquer banda apta a tocar desde que pague aquela quantia. Com isso, uma banda boa pode ficar de fora. Além disso, a qualidade musical do evento fica comprometida. O critério ao invés de ser técnico passa a ser grana e ciclo de amizades. E ainda assim, os amigos todos vão embora quando percebem que o amigo é um péssimo músico.
Isso tudo reflete diretamente na cena como um todo. Há um crescimento enorme de eventos em regiões caracterizadas por tal esquema, uma baixa incrível na qualidade das bandas e com isso a falta de interesse do público em ir ou permanecer no evento para não escutar algo ruim aos seus ouvidos. E ai começam as tradicionais reclamações de falta de público.
Como é feita a seleção para abrir o show de um grande nome? Venda de ingressos? Então o critério para tocar mais perto do artista torna-se "quem vendeu mais ingressos". E muitos desses artistas nem ligam, sabendo que as bandas que estão agora onde eles estiverem, estão sendo exploradas. Não se preocupam com a qualidade do evento que irão tocar. Basta pagar o cachê.
Será que não fica claro que essa postura cria uma ideia de que não precisa ter qualidade ou até mesmo uma estrutura de qualidade (música, site, EP, fotos etc) para ser lançado? Afinal, basta vender. Ou melhor, basta se vender. 
Caro produtor, seja criativo. Assim como foi inovador seu sistema de vendas, pense em algo que incentive as bandas a te ajudarem. Entendo que trata-se de um trabalho e você tem que ganhar com isso sim, mas seja razoável. Chega uma hora que a fonte seca e você vai ter prejudicado o trabalho de todos ao seu redor.
Estamos sendo nivelados por baixo. Por isso o Rio não lança para o Brasil mais nada de qualidade como antes. Por isso, as pessoas já olham com certo receio eventos com bandas independentes. 
Dá tempo de reverter isso? Sim. Difícil? Sim. A luta é dura, mas não impossível. Tenho visto tanta gente boa engajada em reverter essa situação. Cada dia mais me vejo mais esperançoso. E tenho certeza que reverteremos esse quadro.
Há quem diga que isso é um mal necessário ou até mesmo considere uma inovação e a grande criação de um novo "PLANETA DA MÚSICA". 
Outros, como eu, preferem viver nesse planeta aqui mesmo.
Vamos juntos?