Vou
inaugurar meu blog falando de um tema bastante polêmico e que gera
muita discussão: sistema de venda obrigatória de uma cota de
ingressos.
Lembrando
que não estou aqui pra julgar o trabalho de ninguém, nem mesmo o
caráter. Apenas pretendo com esse artigo dar a minha opinião como
um produtor que atua há 07 anos na cena independente carioca, tendo trabalhado diretamente com diversos tipos de produtores e seus esquemas, assim formando minha opinião.
Todos
que trabalham na cena independente sabem das dificuldades desse
mercado de trabalho. Podemos citar a falta de apoio das empresas, das
casas, da falta de interesse do público e muitos outros motivos que
levam a essa dificuldade (tentarei expor alguns assuntos desses em
outros post). Porém, apesar dessa dificuldade de produzir um evento
nesse meio, considero errado e totalmente prejudicial o sistema de
ingressos para o futuro do cenário independente carioca e até mesmo
nacional.
Parto
do principio que todo negócio possui um risco, o ônus comercial. Em
todo tipo de negócio, empresa ou ramo de atividade, há um risco
para aquele que constrói ali o seu "ganha pão". Sendo
assim, todo aquele que se propõe a explorar certa atividade(entenda
aqui, ainda, a palavra de forma literal, no sentido de desenvolver
atividade) deverá arcar com o risco e prejuízo do seu negócio.
Neste
sentido, considero que aquele que inicia sua atividade no ramo de
produção deverá arcar com os prejuízos que seu evento possa vir a
causar e, em hipótese alguma, poderá considerar que os músicos são
também responsáveis por isso. O músico é responsável por
executar suas músicas no palco conforme combinado em contrato. Deve
ter uma postura adequada com a casa, com a produção e com o público
presente. Esse é o dever do músico nessa relação e por isso deve
ser cobrado.
Todavia,
de uns anos pra cá, tornou-se comum em nossa cidade essa "forma
de produção". O "produtor", exige dos músicos ou
bandas uma venda obrigatória de determinada cota de ingressos, que
pode variar de 10 a 100 ingressos como já vi por ai, ou pagamento de
uma taxa que vai de R$200,00 em diante dependendo do evento.
E
esse "esquema parceiro", de divisão de custos do evento,
criado por aquele produtor "inovador", "amigo",
teoricamente, nas palavras deles, torna possível o sonho de muitas
bandas em tocarem e mostrarem seu trabalho. E estas, deveriam
agradecer e não reclamar. Afinal, eles são responsáveis por manter
a cena viva, rodando, ativa e dando oportunidades de trabalho. Será?
Vamos aos fatos.
De
acordo com a Wikipedia, o conceito de epidemia é:
"Uma epidemia se caracteriza pela incidência, em curto período de tempo, de grande número de casos de uma doença. ... Um surto epidêmico ocorre quando há um grande desiquilibro com o agente, sendo posto em vantagem. ... Ao longo do tempo a relação entre agente e hospedeiro tende a mudar de depredatória (favorecendo o agente) para comensal (que não favorece nem um nem outro)."
É
exatamente assim que vejo a relação produtor x músico nesse caso.
E justamente com um "X" entre os dois. Porque não se trata
de uma parceria e sim de uma disputa, onde o produtor, por ser o
criador das oportunidades vence sempre e tem o direito de agir e
exigir os esquemas que bem entender. A banda esbarra nas dificuldades
diárias de venda dos ingressos. Tendo que se preocupar com o
prejuízo que pode ter se não vender, somando a isso
preocupações cotidianas como ensaios, gravações, composições
etc.
A
relação ideal seria produtor + banda. Uma parceria realmente.
Onde as bandas tivessem a preocupação em mostrar seu trabalho com
qualidade, gastando sua preocupação em trabalhar isso.
Vale
ressaltar, que não considero isenta a banda de divulgação. São
coisas distintas. Se eu chamo uma banda pra um evento, monto uma
parceria, eu espero que a mesma divulgue o evento. Crio a expectativa
que a mesma vá avisar aos amigos, fãs, parentes sobre aquele show e
vai tentar ajudar o evento, a casa e a produção da mesma forma que
ajudamos. Não concordo com banda que diz que não quer levar amigos
e nem divulga porque não quer tocar mais pra eles. Tem que ser
pensado no outro lado: casa, produção e evento. Porém, exigir da
mesma um mínimo é algo ultrapassado e totalmente sem sentido. Eu
assumo o risco de selecionar e colocar determinada banda. Cabe a mim
assumir o risco disso. Cabe a banda provar que é digna de minha
confiança e apresentar um belo trabalho, uma grande postura e ainda
que não leve ninguém diretamente, ao menos se mostre empenhada em
ajudar também. É esse o espírito a seguir. A união. Onde todos
vão ganhar e não há uma relação de superioridade entre as
partes.
A
venda de ingressos coloca qualquer banda apta a tocar desde que pague
aquela quantia. Com isso, uma banda boa pode ficar de fora. Além
disso, a qualidade musical do evento fica comprometida. O critério
ao invés de ser técnico passa a ser grana e ciclo de amizades. E
ainda assim, os amigos todos vão embora quando percebem que o amigo
é um péssimo músico.
Isso
tudo reflete diretamente na cena como um todo. Há um crescimento
enorme de eventos em regiões caracterizadas por tal esquema, uma
baixa incrível na qualidade das bandas e com isso a falta de
interesse do público em ir ou permanecer no evento para não escutar
algo ruim aos seus ouvidos. E ai começam as tradicionais reclamações
de falta de público.
Como
é feita a seleção para abrir o show de um grande nome? Venda de
ingressos? Então o critério para tocar mais perto do artista
torna-se "quem vendeu mais ingressos". E muitos desses
artistas nem ligam, sabendo que as bandas que estão agora onde eles
estiverem, estão sendo exploradas. Não se preocupam com a qualidade
do evento que irão tocar. Basta pagar o cachê.
Será
que não fica claro que essa postura cria uma ideia de que não
precisa ter qualidade ou até mesmo uma estrutura de qualidade
(música, site, EP, fotos etc) para ser lançado? Afinal, basta
vender. Ou melhor, basta se vender.
Caro
produtor, seja criativo. Assim como foi inovador seu sistema de
vendas, pense em algo que incentive as bandas a te ajudarem. Entendo
que trata-se de um trabalho e você tem que ganhar com isso sim, mas
seja razoável. Chega uma hora que a fonte seca e você vai ter
prejudicado o trabalho de todos ao seu redor.
Estamos
sendo nivelados por baixo. Por isso o Rio não lança para o Brasil
mais nada de qualidade como antes. Por isso, as pessoas já olham com
certo receio eventos com bandas independentes.
Dá
tempo de reverter isso? Sim. Difícil? Sim. A luta é dura, mas não
impossível. Tenho visto tanta gente boa engajada em reverter essa
situação. Cada dia mais me vejo mais esperançoso. E tenho certeza
que reverteremos esse quadro.
Há
quem diga que isso é um mal necessário ou até mesmo considere uma
inovação e a grande criação de um novo "PLANETA DA MÚSICA".
Outros,
como eu, preferem viver nesse planeta aqui mesmo.
Vamos
juntos?